segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Teimosia (Cássia Portugal)


Não desisto de você, seria como desistir de mim mesma.
Não desisto de ver seus olhos me fitarem na tarde chuvosa e me fazerem sentir calor e estremecimento.
Não desisto de ouvir o silêncio junto consigo, quando as palavras soariam tolas e desnecessárias.
Por vezes, entendia obrigatória uma palavra no ar...
Quando o maior dos ouros se encontra no som da nossa respiração tão próxima, quase em vozes.
Amo ouvir o seu nada! Mesmo quando espero respostas.

Não desisto de brigar, teimar, subir em chamas, quando você não ouve sem querer, ou ouve e reclama.
Que falta me faz o barulho do estribilho que você sempre canta quando quer me convencer!
Parece brinquedo de menino, doce e forte, espontâneo, jogo de sorte ou azar, lançado só pra ver onde vai dar.

Não desisto de juntar pequeninas coisas que me encantam e distraem :
roupas jogadas nos cantos, papéis espalhados pela casa, a louça empilhada por preguiça, sinais de que você existe!
O que seria de mim sem este milagre, de você na minha rede, quase em suspiros adormecidos ?
E eu vejo sua face tão bonita, e sinto que fui acarinhada por Deus por poder viver este momento.

Não desisto de ser o seu tormento e a sua paz,
Pois os dias não são iguais, e nem eu, nem você, poderíamos ser a todo momento.
Não desisto de ficar calada quando o açoite lhe atormenta, vindo de sua angústia, ou sua raiva, cansado da luta injusta dos dias,
E após o turvo descarrego, lhe abrigar no aconchego dos meus braços e embalar o seu sossego.
Não desisto deste meu apego.

Não desisto de fazer imperar o meu querer porque o meu querer é você,
e a minha voz é pra lhe encantar e o meu sorriso é pra lhe alegrar toda manhã.
Não resisto a ser seu brinquedo preferido, que você usa e abusa,
Depois guarda como um tesouro, pra que esteja lá, hoje e amanhã.

Não desisto de tentar lhe convencer do meu amor, mesmo que o saibas de cor.
Não desisto de lhe perguntar o quanto me ama, mesmo que seja dito todo dia.
É que me alimento desta canção, de sua voz a me falar entre sussurros ou risadas.
Não desisto de procurar pelo seu sorriso, mesmo em dias de trovoadas!

Não desisto de esperar calmamente, a hora em que você está despido de resguardes,
e que só após a travessia de sua própria tempestade, você possa me dar um pouco do seu tempo,
pois a calmaria em nossos passos, é alimento, riqueza, e sempre volta em êxtase!
Melhor esperar tranqüila pelo seu beijo, que morrer à míngua, aflita de desejo.

Não desisto quando o cinza impera... Ele é a suavidade da total negra escuridão.
Ainda há alguma claridade submersa.

Não desisto de ser teimosa e insistente. Quero a vida e dela não desisto.
Perante a dor eu permaneço reticente.
E nesta inércia de não lutar pelo absurdo, espero orgulhosa pelo dia claro que vem depois do escuro.E nele sempre acordo em seu abraço, meu porto, meu escudo.

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